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Intermitências


Ao abrir e fechar os olhos, tanto acontece dentro e fora de nós. As urgências que nos movem são diferentes, mas muitas vezes bastante similares. Sobreviver é um desafio para o homem desde sempre. Como lidar com educação e arte, suspendendo por um momento nossas urgências vitais para estar com outros? Para o encontro fazer sentido na presença de um contato vivo? O avesso pode ser tocado de outramentos, mas nosso pensamento segue em movimento. E entre uma coisa e outra a arte contemporânea pode ser uma possibilidade de mobilização, que, em alguns casos, quer ser olhada ou clama por interação para sobreviver. Nos convoca a perceber, a sentir, a pensar, a agir. A arte fala através de nós. Damos a ela outros caminhos, interpretações, dimensões simbólicas, pelos nossos pensamentos e palavras. Com o tempo entrecortado, nosso dia sofre sobreposição de tantas demandas que se torna difícil parar. As propostas que envolvem arte e educação hoje são possibilidades de deslocamento para pensar, sentir, agir ou interagir. Nem sempre resultam em algo, mas tem mobilizado as pessoas. Mas o que seria resultar em algo? Mudar o ponto de vista?

Pôr em contato sobrevivências? Expor nosso corpo, nossa máquina a outros ritmos? Visualidade ? Polifonia? Recorte temporal que pode abrir uma fresta na nossa impermanência? Tenho me sentido mobilizada pela arte e educação já há muito tempo, e aos poucos um interesse pessoal foi se tornando uma urgência política, uma possibilidade de intervir e de propor um lugar de encontro que possa gerar deslocamentos para pensar e fazer junto, para trocar e gerar outramentos. Mas ativar movimentos gera um compromisso em mim, um compromisso imenso. E as outras pessoas? E cada um de vocês, o que lhes interessa deste assunto? Talvez tenhamos sido mobilizados por diferentes motivos, mas nossa troca pode acontecer neste momento (ou não). Com oportunidades únicas, em cada passo pode acontecer um caminho diferente. Vivemos a humanidade em crise e apesar da vida no planeta nunca ter sido fácil, agora os desequilíbrios nos ameaçam. Acredito no poder que existe em criar junto, em fazer junto. E mesmo estando sozinhos tantos nos habitam. O confronto, o descenso, a conversa, o diálogo são possibilidades de tomadas de posição, de interlocução. Para que isto aconteça um espaço precisa ter lugar e cada um de nós pode ativar este lugar, este ambiente - cavar, empurrar os limites da impossibilidade, catalisar uma circunstância que sequestre e que desperte para estar de outro modo. Acredito na potência política da arte e da educação conectadas, potência de mobilização para a vida, faísca que pode acender uma transformação, como tantas outras áreas da vida podem. Estou profundamente conectada com esta forma de expressão, de movimento. Ao assumirmos o espaço que ocupamos, geramos energia e desdobramentos de nossa ação, difusão. Trabalhar com educação envolve muitas pessoas, é uma responsabilidade e ao mesmo tempo pode ser uma celebração. Nas celebrações, nas festas o descontrole está posto. Como seria bom se as crianças pudessem ir para escola chamadas pela celebração da curiosidade, da vontade de estar junto com aquelas pessoas que vai encontrar, chamada por um desejo de estar num lugar vivo. Onde se pode perguntar, pesquisar, criar, inventar, desenvolver projetos. Um lugar educativo cheio de coeficiente artístico com espaço para o imaginário se tornar visível. A vida contemporânea, sistema complexo, faz com que lidemos com situações tão diferentes, mas o perigo da aceleração é mecanizar todos os momentos e automatizar nossos gestos e pensamentos. Isto parece matar o que é vivo. Quantas negociações e instâncias temos que enfrentar para a arte e a educação acontecerem. Num grande evento como uma Bienal, segundo Luis Perez-Oramas, uma grande Babel, as negociações são infindáveis, a luta pela expressão de vozes singulares é diária - voz dos artistas, das pessoas que visitam, dos que trabalham.

O Educativo Bienal trabalha em campos poéticos com uma diversidade de pessoas que vem de lugares diferentes, com ponto de vista diferentes que ocupam espaço com a expressão de suas diferenças, nas conversas, nos ruídos.

Dentro desta luta polifônica, o encontro é possível, mas imponderável, sempre iminente. A 30ª Bienal de São Paulo se chama A iminência das poéticas, e o curador geral da mostra Luis Perez-Oramas diz que a iminência é nosso destino e a poética são nossas armas, a linguagem. Acredito que o ensino da arte tenha a potência de possibilitar a ativação de armas que se renovam, atualizam pelo contato, a linguagem como ferramenta de transformação, de relação com a vida. O que é vivo muitas vezes incomoda, faz barulho, traz desassossego, aflição, mas é a possibilidade para burlar a inércia do automatismo.


Stela Barbieri

 


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