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  Nas esculturas de Stela Barbieri, são as nações de interior e exterior que se confundem, o paradoxo de que entranha e pele, víscera e superfície sejam, se não idênticos, territórios sem conflito, alimenta todo o trabalho e responde pela fluência de suas soluções formais. Ao aproximar estes dois pólos opostos, o trabalho passa a querer tudo: nós, laços, sacos, materiais empilhadas, coisas jogadas, amontoadas, penduradas, escorridas, coladas. Uma dilatação de idéia de forma acompanha a vizinha proibida do dentro e do fora; uma indiferença pelo que é aparência ordenada, individuação de uma visão. Tudo aqui é passagem, casulo de outro casulo, pele desgovernada e faminta, em expansão aflita. A matéria varia de estado, exibe suas qualidades sucessivas, torna-se a pegada de todas as formas. O que dá interesse a estes trabalhos é sua plasticidade excessiva, como se pudessem receber todas as operações. Há, nisso, uma mistura de potência expressiva e passividade extrema, que em seus melhores momentos parece apontar para uma compreensão trágica da vida, como se fazer e desfazer, liberdade e destino fossem o mesmo.

Nuno Ramos
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