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VER COM AS MÃOS

Nada mais irritante do que sair com um guarda-chuva comprido num
dia ensolarado. O cidadão caminha com o instrumento como quem
leva um estranho pacote, sendo atrapalhado pelos menores obstáculos,
por portas e catracas, e, mais ainda, tendo de superar a adversidade
com uma mão a menos: aquela que leva o fardo. Uma vez em casa,
só lhe resta reclamar: Ah vilão, se não tivesse te levado, teríamos tido
o dilúvio!


Porém, convido-os a não agir tão severamente com aqueles guardachuvas,
pois eles emprestam um serviço particular e valioso, isto é, nos
ensinam a ver com as mãos. De fato, eles oferecem notícia dos objetos
a distância com um rigor muito maior que o dos olhos, pois estes
costumam errar: às vezes, julgam o macio por duro ou acham suave
o que é áspero. Enquanto o tato é infalível. Jamais chega se enganar.
Cada fenda, cada mudança de calçada, cada desnível do chão é revelado
em detalhe. As crianças sabem bem disso. Não é por acaso que
gostam de arrastar galhos pelas paredes: eles oferecem informações
fundamentais sobre a textura e a dureza e, mais ainda, se porventura
aparecer uma grade, dão conta – com o compasso – do tempo que
implica o percurso.


Uma das chaves para entrar na obra de Stela Barbieri está em compreender
a experiência como um problema sensorial, isto é, os canais
e a forma em que sentimos o mundo. Assim, o trabalho desta artista
é um convite ao visitante para explorar seus próprios mecanismos de
percepção e suas interações. Um exercício que só é possível porque Stela
se recusa a propor o olho como rei dos sentidos, rompe essa hierarquia
tipicamente ocidental, revelando as relações entre a visão e outros dispositivos
sensoriais, especificamente o tato. Daí seu trabalho com líquidos,
fluidos, com minerais triturados, com materiais flexíveis que dão conta
tanto da pressão quanto do peso e – como explicarei mais adiante – com
determinadas cores.


Em suas intervenções no Sesc, Stela Barbieri propõe o Projeto Lugares.
Peças que, longe de se constituir em objetos a serem contemplados, se
abrem como espaços a serem experimentados, vivenciados e, mais ainda,
transformados pelos visitantes, que terão a possibilidade de brincar
com os materiais, jogar com os elementos. Isto é, terão a possibilidade de conhecer, assunto que só é possível através da experiência. A outra
classe de conhecimento, essa tão explorada em universidades e escolas,
aquela que consiste em repetir algo que um outro já disse, é esquecida
na hora. Assim, aqui temos obras-experiências que justamente acontecem
no tempo do visitante, quando este perde a compostura própria
de um hóspede e, tornando-se membro da família, começa a mudar a
casa; o que é, em resumo, o convite de Barbieri.


Lugar para construir é composto por dois elementos principais:
madeira e diversos objetos de espuma. O primeiro elemento é
estrutural. Assim, ao modo de uma coluna vertebral, encarrega-se
de encadear o espaço, articulando o conjunto. Os outros objetos são
cubos de espuma de uma densidade média e pranchas de espuma
densa; artefatos a serem movimentados com facilidade; a espuma
é leve e é mole, poderá ser carregada e em caso de queda não vai
afetar ninguém, nem sequer a si própria. A espuma absorve a força, é
flexível ao mundo, pode mudar a forma para depois recuperá-la sem o
menor inconveniente, condições que a contrapõem às estruturas. Com
efeito, nesse espaço, temos dois objetos de categorias diversas: aqueles
constituídos por tábuas, imóveis, e aqueles feitos de espuma a serem
movimentados, deslocados.


Um lugar em que visitantes-familiares ficam à vontade; podem mexer
e, como seu nome indica, construir. Levantar uma casa, uma passagem
e, nessa experiência perceber, já não tanto as dimensões dos objetos e
do espaço, mas suas próprias dimensões: a que altura está sua cabeça;
quão longe de seu nariz se encontra seu dedo mindinho.


A segunda intervenção, Lugar de combinações líquidas, consiste
numa sala com estruturas feitas de metal, mesas, objetos de vidro e
cores. As estruturas metálicas vêm do desenho, dos esboços que Stela
tem realizado durante anos em seus cadernos de estudo. Assim, mais
do que tubos, são traços de nanquim que abandonaram a página,
se tornaram volumes, corpos no espaço, mas sem perder a condição
de risco. Sua cor específica: um preto opaco, que rejeita qualquer
brilho, e seu caráter não industrial, não homogêneo, enfatizam essa
característica.


Completamente distinto de Lugar para construir, agora nos
encontramos numa espécie de laboratório químico com mesas e
prateleiras para a realização de testes; e massas de algodão e um
líquido laranja em recipientes de vidro, como materiais de estudo. De
fato, emprego a palavra laboratório porque se trata de um lugar que
não é semelhante ao mundo, mas está regido por regras específicas,
estabelecidas a partir da cor. Um lugar onde o preto, o branco e o
laranja são os únicos tons aceitos.


A preocupação com a cor é uma constante no percurso de Stela
Barbieri. Várias obras anteriores, desde a década de 1990, têm assumido
a cor como problema fundamental. Dessa forma, a escolha do
preto, do laranja e do branco para essa instalação não é um acaso; vem
de pesquisas anteriores com o urucum – semente de um laranja intensíssimo
–, o extrato de nogueira e o nanquim – pretos por excelência –,
e o algodão – imagem do branco. Em resumo, materiais em que a cor
é fundamental, intrínseca.

Na Metafísica, Aristóteles afirma que existem duas classes de ser. A primeira
quando declaro: isto é uma laranja; a segunda quando digo: isto
é laranja. Concordaremos que, no primeiro caso, estou dando conta do
objeto, a fruta, enquanto no segundo, de uma qualidade – atributo ou
acidente – dessa fruta. No entanto, Stela Barbieri não gosta de trabalhar
os atributos como acidentes, mas como substâncias em si, de modo que
uma cor determinada ou uma caraterística específica vira um objeto.


Logo, não é a coisa a encarregada de possuir determinada característica;
é a característica que acaba convertida em coisa. Assim, se o habitual é
afirmar: "Este líquido é laranja", numa instalação de Barbieri, vamos ter
que colocar a frase de cabeça para baixo, afirmando: "O laranja é este
líquido". Igualmente acontece algo que eu já vinha pressentindo: não é
que o nanquim seja preto; é que o preto é o nanquim.


Em resumo, a qualidade toma o lugar da coisa, o adjetivo vira substantivo,
o atributo se converte em substância. Troca de papéis que conduz,
inevitavelmente, a um diálogo sensorial na medida em que se uma cor é
objeto, então poderá ser conhecida não somente através do olho, mas
através do tato, do olfato, do ouvido e, incluso, do gosto.


Assim, numa obra de Barbieri, os sentidos entram em diálogo. Ou
melhor, a gente, nesse laboratório, nesse lugar a ser construído, percebe
seu bate-papo, essa conversa que costumam manter sem nos consultar:
raramente escuto a ponta de meu indicador falando com meu olho, mas
desconfio que sempre estão fazendo intrigas. A obra de Barbieri confirma
a minha suspeita.


Julia Buenaventura

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