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ESPAÇO DE AÇÃO

O Projeto Lugares, de autoria de Stela Barbieri, neste momento
compreende cinco de suas obras: LUGAR PARA LER, LUGAR PARA
DESENHAR, LUGAR DE COMBINAÇÕES LÍQUIDAS, LUGAR PARA
CRIAR ESPAÇOS e LUGAR PARA SEMEAR
. Poderia compreender outras,
todas elas relacionadas com o variado espectro de ações, conceitos, materiais e territórios – disciplinares e poéticos – praticados pela artista.


A recorrência do termo lugar, denominador comum de todas as obras pertencentes a esse projeto, algumas já realizadas, outras a serem inventadas, explica o foco de sua investigação: a produção de espaços dotados de ualidades específicas.


O conceito de espaço, em que pese seu uso generalizado, traz consigo
uma herança fortemente abstrata. Com as raízes fundadas na geometria analítica, o espaço concerne à ideia de coordenadas, de posição, sem qualidades, homogêneo, branco e preciso como grande parte da arquitetura moderna. Stela repele drasticamente esse conceito e as imagens que lhe são correlatas.


Num mundo cujo grande avanço tecnológico gera, em contrapartida, a perda de experiência, o contato direto e consciente com fenômenos, coisas e processos, é necessário, imprescindível, tomar providências.É preciso fazer com que as pessoas se deixem ensinar pelas coisas, saber delas, saber de si por meio delas. Urge fazer com que seus sentidos alimentem-se de parte do universo oferecido pelo mundo sensível para que o ser seja irrigado, para que a sensibilidade, a imaginação e a expressão se levantem.


As providências de Stela são, desta vez, obras-oficinas, um dos pontos
culminantes de sua trajetória, e que consistem na construção de lugares,
sítios potentes, acolhedores, desafiadores, cuja luminosidade da artista – que orquestra a situação, que propõe o campo a ser revolvido, que oferece os modos de trabalhá-lo sob a forma de um jogo, com regras, materiais e dispositivos para que qualquer um possa jogá-lo – combina-se com a dos visitantes ou – como diria Lygia Clark, com quem nessa série de trabalhos Stela faz eco – dos agentes. Cada um dos LUGARES propostos é um espaço de ação e sonho, de engenharia e poesia, de contato corporal e afetivo, de decisão e intuição.

LUGAR PARA LER
Ler é uma ação semelhante a viajar, com a diferença que é imóvel. O leitor, qualquer um, é como um viajante imóvel. Não foi assim que Cioran cunhou Jorge Luis Borges, o grande escritor argentino, diretor da imensa Biblioteca Nacional de Buenos Aires, tema de vários de seus contos labirínticos, que mesmo cego jamais deixou de escrever?


Associamos leitura com livros e é normal que o façamos. Afinal, desde a invenção da imprensa o mundo foi povoado por esse objeto, esse meio de transporte portátil que nos leva enquanto nós o levamos para casa, para o sofá, para a cama, para a escola, para todos os lugares para os quais viajamos, pois nada como a companhia silenciosa de um livro. Uma companhia rigorosamente à mão.


Livros trazem dentro de si, entranhados, textos de toda ordem, teorias, narrativas, geografias e histórias íntimas, distantes, plausíveis, extraordinárias.
O que pode caber nesse pequeno objeto denso, espesso, composto por folhas secas, empilhadas, coladas em uma das bordas?
Virtualmente tudo ou quase tudo (deixemos uma larga e infinita margem
para todos os livros que ainda serão escritos).


Se é fato que quase tudo pode caber num livro, apresentado sob a forma de ilustrações, esboços, desenhos e... letras, o mais abstrato dos signos; se o jogo das cifras tingindo as páginas quadrangulares alimenta- nos a imaginação, isto deveria servir de lição sobre outras formas de leitura. E não é fato que se fala sobre o "livro do mundo"?
Mais importante que o livro, essa máquina preguiçosa, é o leitor, que é quem a coloca em movimento. Aprender a ler não é algo que se reduz a uma língua, mas que se estende a tudo. Tudo o que há, feito ou não pela mão do homem, está à espera de ser decifrado, porque assim desejamos, porque não conseguimos resistir a esse impulso. Da palavra escrita à direção do vento, do mais prosaico dos objetos a uma foto enviada pelo Hubble, tudo conta uma história, de tudo se desprende um aroma. Aliás, até um aroma enuncia sua fonte que, em alguns casos, enraíza-se em nossos afetos.


Com mesas e bancos, com a coleção de livros de autoria da própria artista, com uma vasta oferta de materiais, LUGAR PARA LER é um espaço de expansão da leitura, na medida em que não só convida à leitura, mas à produção de narrativas, até mesmo narrativas enigmáticas, aquelas cujo conteúdo não alcançamos entender. Pois, considerando as sucessivas incompreensões cotidianas, a leitura de nossas ações nem sempre coincide com o que desejávamos. Somos, constantemente, lidos sob óticas surpreendentes. Então, que tal produzir um livro cuja compreensão nos escape, mas que pode fazer
sentido para os outros?


LUGAR PARA DESENHAR
Desenhar é ver o mundo de perto, escrutinizando seus detalhes, contornos
e estrutura, bem como projetando um mundo desde dentro, exteriorizando-o por meio de um esboço, uma cifra sobre uma folha de papel ou parede de caverna, ou ainda realizando uma construção.

Embora admitido como fonte das várias expressões humanas, afinal todos nós, artistas e não artistas, projeta ou anota ideias sob a forma de rabiscos, garatujas, esboços, o desenho que comumente é exposto nas paredes de museus e galerias é aquele considerado um fim em si mesmo, e não parte de um processo mais longo e intrincado.
Desenhar, porém, tem a ver com olhar, comentar, registrar, lançar uma ideia, tanto em estado mais avançado quanto em condição larvar.


Equivale a se colocar em relação a algo, esteja ele diante de nós, agora, ou venha sob a forma de lembrança, ou ainda como a tentativa de tradução de um relato, como o célebre desenho de um rinoceronte que Dürer fez a partir de uma descrição. Desenhar também é uma maneira de se lançar ao futuro, abrindo-se à imaginação e à impossibilidade. Em qualquer caso, desenhar é ampliar a subjetividade.


LUGAR PARA DESENHAR
defende e aprofunda essa perspectiva, esse modo de entendimento do desenho, lembrando que além do papel jogado por essa prática nos variados processos de cognição e expressão de que nos valemos, internos ou externos à arte, desenhar concerne ao modo como nos organizamos no mundo, dele tomando a matéria-prima com que construímos espaços, estabelecemos ritmos e estruturas.


Desde o princípio de sua trajetória, Stela Barbieri, afeita que sempre foi aos materiais, combinou desenhos realizados com lápis e pincéis sobre papéis e tecidos, com um elenco variado de materiais, orgânicos e não orgânicos, eventualmente articulados. Da clássica situação do lápis premido pelos dedos da mão apontados para a superfície de papel ou de pano, a artista lançou-se às lãs encharcadas de tinta jogadas contra a parede, as membranas produzidas por folhas de papel celofane endurecidas com cola, estruturadas com fios metálicos, apoiadas e dispostas no ambiente expositivo.


LUGAR PARA DESENHAR propicia a prática do desenho em suas várias
versões, da escala intimista do que se produz com os dedos até aquele
que se obtém por intermédio do corpo.


LUGAR DE COMBINAÇÕES LÍQUIDAS
Analisar um material, manipulá-lo, compreender paulatinamente suas peculiaridades, seus comportamentos, seu temperamento, sua aparência,
o modo como se relaciona com outros materiais, seu envelhecimento,
suas vontades, algumas delas ocultas, que só se dão a ver após estudos
demorados, equivale a introjetá-lo, transformar-se nele da mesma forma
como, no dizer de Camões, o amador transforma-se na coisa amada.


LUGAR DE COMBINAÇÕES LÍQUIDAS é um convite ao envolvimento detido sobre a água, o líquido primordial, um ensejo à aprendizagem de algumas das lições que ele oferece. É também uma curiosa construção situada entre um laboratório químico, um centro de pesquisas hidrológicas e um jardim aquático cujas florações coloridas, plantadas pelos frequentadores, têm o formato de recipientes duros, como garrafas e frascos de vidro e porcelana, macios, como tecidos porosos ou sacos plásticos, quase tudo transparente ou branco, estratégia para evidenciar algumas de suas propriedades mais distintivas.

Vive-se graças à água. Não há dia que passemos sem ela, o que não
significa que atentemos para o seu alcance, sua profundidade material
e simbólica, maior, muito maior, que a imensa importância que lhe consignamos. Assim somos hoje: sabemos das coisas, mas nos recusamos
a vivenciá-las; sabemos abstratamente, e quando chove nos apressamos em abrir os guarda-chuvas.


É mesmo surpreendente a extensão da presença da água, sua ubiquidade,
sabê-la compondo a maior parte do nosso corpo, fluir e espraiarse pelas teias capilares, ao mesmo tempo em que se esparge pelo ar, umedecendo-o ou, quando em grande volume e consoante as condições ambientais, condensando-se, vertendo sobre o chão ou jorrando do seu interior, escorrendo desatadamente, enamorada que é da gravidade, até acomodar-se em lagos, poças, lâminas finas cuja sensibilidade se denuncia pelo modo como reage à brisa que lhe roça a superfície.


LUGAR DE COMBINAÇÕES LÍQUIDAS retrata a doce submissão da água
assumindo o corpo do frasco que a contém; retrata também o desejo voraz e incontido por tudo que há, da chuva à mucosa dos pântanos, de como encharca os tecidos e refresca o barro, mantendo-o maleável. Mostra ainda a solubilidade da água, do poderoso dissolvente que é. E talvez justamente porque seja inodora, insípida e incolor, esgarça o torrão de pigmento de terra, toma para si o bocado de tinta pastosa grudada no pincel, ávida da cor que ele carrega.


LUGAR PARA CRIAR ESPAÇOS
Linhas, pontos, planos em tamanhos, formatos, texturas e cores variadas...
O que é preciso para se produzir espaços no espaço plano da superfície de uma folha de papel? Linhas e pontos são balizas para os olhos, elementos que os atraem e os guiam pelo interior de corredores, umbrais, acontecimentos sutis, imperceptíveis ou não, situações ruidosas, tensas, crispadas, quando é o caso do gume de uma linha eriçar-se, quando o ritmo dramático de planos hachurados agem como redes de captura, deixando que os olhos momentaneamente se debatam como peixes vivos. E quando vêm as cores, o desenho ilumina-se em atmosferas variáveis; planos, linhas e pontos irradiam-se, exaltam-se, escapam de si, contaminando as presenças próximas com seus hálitos e suas sonoridades, que podem ser discretos ou agressivamente ácidos. Stela Barbieri desenha com lápis, pincéis, papéis, mas também com
tesouras, estiletes, gravetos, arames, cola, tecidos e o que mais entender
na construção de espaços. E se o papel foi seu ponto de partida, não se pode saber qual será seu ponto de chegada, pois o volume espacial de uma sala qualquer é mais do que suficiente para ela inventar uma miríade de ambientes, para que ela ponha em movimento sua capacidade de compor espaços.


É assim com LUGAR PARA CRIAR ESPAÇOS, obra polimórfica, caleidoscópica,
fundada em cores quentes – vermelho, nesse caso –, estacas de madeira passíveis de serem encaixadas entre si e num piso preparado precisamente para esse fim, com tecidos fazendo as vezes de paredes e tetos, percorrendo alturas, deslizando em quedas de velocidade variável, acomodando-se, lisos ou enrugados, em soluções com a mesma ternura das cabanas que, nos dias de chuva, fabricávamos nas salas de nossas casas com lençóis e almofadas, ou, melhor ainda, nas barracas mais duradouras que erguíamos em quintais sob as árvores, as casinhas onde a vida, regada pela imaginação, era tão intensa e feliz que mal conseguíamos suportá-la.


Lugar para criar espaços é uma obra e um sonho ofertado pela artista
para que todos, crianças e adultos, exercitem a produção de espaços.
Eles vão chegando e organizando suas afetuosas clareiras de aconchego,
construindo casas dentro de casa: uma cidade cambiante, tomando para
si os materiais, empreendendo com mãos e corpos, decidindo juntos a
feição do lugar que querem para si, o espaço cálido, mergulhado numa
penumbra avermelhada, no qual, entre as risadas de cristal das crianças,
conversarão e brincarão por um momento esquecidos do mundo lá fora.


LUGAR PARA SEMEAR
Em 1990 Stela Barbieri expôs numa mostra coletiva realizada no Paço das
Artes, em São Paulo, um trabalho composto por feijões espalhados sobre
uma área retangular constituída de camadas de algodão e que ocupava
uma parte da sala expositiva. Durante a abertura, alguns de seus colegas
artistas comentavam discretamente que aquilo não poderia ser considerado
propriamente uma obra de arte, uma vez que o autor não podia controlar o resultado. A artista, indiferente ou apenas alheia às ressalvas, visitava diariamente a exposição com o propósito de regar o campo-alvo, garantindo que os feijões vicejassem. Como era de se esperar, em pouco tempo os delicados talos foram rompendo a trama espessa do chão claro e macio, erguendo-se vívidos, com os bulbos nas extremidades semelhantes a olhos curiosos.


Com o passar dos dias, o ritmo alternado das aguadas e ressecamentos
foram assentando as camadas do algodão, cada vez mais borrado pelo
crescimento dos feijões, sobretudo pelas raízes que iam se fincando e se
espalhando subterraneamente de modo a garantir a firmeza da plantinha.
O apodrecimento progressivo do campo cultivado praticamente coincidiu
com o auge dos feijões. O desenho desencontrado dos caules e raízes, o
grafismo nítido de marrons-claros e tonalidades de verde, sobreposto às
fibras brancas cada vez mais embaciadas por uma coloração ferruginosa,
garantia que a obra, do primeiro ao último dia de exposição, fosse se
metamorfoseando ininterruptamente.


Até onde sei, essa foi a primeira vez que a artista exibiu um trabalho
orquestrado por ela, mas realizado em associação com a natureza, uma
coautora cujos princípios nem sempre logramos entender.


LUGAR PARA SEMEAR consiste no coroamento desse processo fundado
na compreensão do artista como aquele que catalisa, ou dá a ver, processos
naturais, como as pequeníssimas, imperceptíveis, aos nossos olhos
de natural desatentos, explosões ocorridas no âmbito da natureza, sob a
forma das sementes que explodem, desentranhado as carnes e cores com
que conquistarão o espaço.

O vidro ovalado em cujo interior repousa um tesouro de semente mínimas,
irrequietamente coloridas, o tubo cilíndrico preenchido com água e uma
planta verde delicada, filiforme, arranjada num desenho helicoidal, são
exemplos de como os mistérios e as maravilhas do mundo vegetal podem
ser, ao menos parcialmente, revelados.


Agnaldo Farias

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